«"Se conhecesses o dom de Deus..." Há uma criatura que conheceu esse dom de Deus, uma criatura que não perdeu sequer uma parcela dele, uma criatura que foi pura, tão luminosa, que parece ser a própria Luz. Uma criatura cuja vida foi tão simples, tão perdida em Deus, que quase nada se pode dizer dela. É a Virgem fiel, "aquela que guardava todas as coisas no seu coração» (Lc 2, 19 e 51). Mantinha-se tão pequena, tão recolhida em face de Deus, no segredo do templo, que atraía as complacências da Santíssima Trindade: "Porque Ele olhou para a humildade da sua serva, doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada!..." (Lc 1, 48) O Pai, inclinando-se para esta criatura tão bela, tão ignorante da sua beleza, quis que fosse a Mãe, no tempo, d'Aquele de quem Ele é o pai na eternidade. Então, o Espírito de Amor, que preside a todas as operações de Deus, sobreveio-lhe; e a Virgem diz o seu fiat: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra" (Lc 1, 38), e assim se realizou o maior dos mistérios. E, pela decida do Verbo nela, Maria ficou para sempre a cativa de Deus.
(...) A atitude da Virgem, durante os meses que decorreram entre a Anunciação e o Natal, é o modelo das almas interiores, dos seres que Deus escolheu para viverem de dentro, no fundo do abismo sem fundo. Com que paz, em que recolhimento, Maria se entregava e se prestava a todas as coisas! Como é que mesmo as mais banais eram por ela divinizadas! Porque, em tudo, a Virgem permanecia a adoradora do dom de Deus!» (Isabel da Trindade, «O Céu na Terra», 10, Obras Completas)

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