«Ó Maria, tu és a criatura que conheceu o dom de Deus e nada dele desperdiçou, tão pura, tão luminosa que parecias a própria luz. "Speculum iustitiae"; a tua vida foi tão simples, tão absorta em Deus que pouco se pode dizer dela. "Virgo fidelis": és a Virgem fiel, a "que conservavas todas as coisas no teu coração". Sentias-te tão humilde e permanecias tão recolhida diante de Deus, no santuário da tua alma, que atraíste as complacências da Santíssima Trindade. "Porque pôs os olhos na humildade da sua escrava, por isso me chamarão bem-aventurada todas as gerações".
O Pai, ao contemplar-te tão bela, tão ignorante da sua formosura, determinou que fosses, no tempo, a Mãe d'Aquele de quem Ele é o Pai na eternidade. Então, veio sobre ti o Espírito de amor que preside todas as operações divinas, e tu, ó Virgem, pronunciaste o teu "Fiat": "Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra". E realizou-se o maior de todos os mistérios. Pela Encarnação do Verbo, foste, para sempre, posse de Deus.» (Beata Isabel da Trindade, 1.º retiro, 10,1)
domingo, 8 de setembro de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
Salmo 14 (15)
«Quem habitará, Senhor, no vosso santuário,
quem descansará na vossa montanha sagrada?
O que vive sem mancha e pratica a justiça
e diz a verdade que tem no coração;
o que não usa a língua para levantar calúnias,
e não faz o mal ao seu próximo
nem ultraja o seu semelhante;
o que tem por desprezível o ímpio,
mas estima os que temem o Senhor;
o que não falta ao juramento, mesmo em seu prejuízo,
e não empresta dinheiro com usura,
nem aceita presentes para condenar o inocente.
Quem assim proceder
jamais será abalado.»
«Quem habitará, Senhor, no vosso santuário,
quem descansará na vossa montanha sagrada?
O que vive sem mancha e pratica a justiça
e diz a verdade que tem no coração;
o que não usa a língua para levantar calúnias,
e não faz o mal ao seu próximo
nem ultraja o seu semelhante;
o que tem por desprezível o ímpio,
mas estima os que temem o Senhor;
o que não falta ao juramento, mesmo em seu prejuízo,
e não empresta dinheiro com usura,
nem aceita presentes para condenar o inocente.
Quem assim proceder
jamais será abalado.»
Este lindíssimo salmo convida-nos à reflexão! Também nós, tal como o salmista, podemos perguntar a Deus: «Quem habitará, Senhor, no vosso santuário?» Neste mundo todos somos peregrinos e nesta peregrinação buscamos o caminho, que é somente um: o caminho que nos leva a Deus, a habitar o Seu santuário. O ser humano é um indivíduo errante, procura o verdadeiro repouso, procura a felicidade. Se se perguntar a alguém se deseja ser feliz, a resposta afirmativa surge de imediato. A felicidade é o fim de toda a nossa vida.
Pela fé, tornamo-nos fiéis a Deus, porém ainda não chegamos à felicidade almejada, mas estamos no caminho certo; o caminho que nos conduz à felicidade eterna, ao amor eterno que é Deus. O amor a Deus e ao próximo são como que passos que vamos dando neste mundo.
E ao meditarmos este salmo, vem logo à ideia as palavras de Jesus: ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.
«Quem ama, corre; quanto mais fortemente amas, mais depressa caminhas; quem ama pouco, progride devagar; quem não ama, não avança; quem ama o mundo, olha para trás, e não está voltado para a pátria.» (Santo Agostinho)
16.º Domingo do tempo comum
1.ª leitura: Gn 18,1-10a
Sl 14(15),2-4ab.5
2.ª leitura: Cl 1,24-28
Evangelho Lc 10,38-42
1.ª leitura: Gn 18,1-10a
Sl 14(15),2-4ab.5
2.ª leitura: Cl 1,24-28
Evangelho Lc 10,38-42
«Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação, e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa. Ela tinha uma irmã chamada Maria que, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço. Interveio então e disse: "Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me." O Senhor respondeu-lhe: "Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada."»
Quantas vezes, demasiadas vezes, fazemos o papel de Marta! Embrenhados nos nossos afazeres, envolvidos de tal ordem com as nossas tarefas e os nossos problemas, que nem tão-pouco nos lembramos do papel de Maria...
Marta, perante tal visita ilustre, Jesus, deseja agradar-lhe através de uma refeição de excelência. Maria, pelo contrário, sentou-se aos pés do Mestre e escutou-O. Preferiu conversar com Ele, ouvir as Suas palavras. A atitude de Marta, a sua hospitalidade, o seu desejo de agradar ao Mestre, mediante o trabalho de bem receber, são, sem dúvida louváveis. Porém, Jesus declara que há uma maneira melhor de receber o Senhor: aquela que Maria escolheu.
Com efeito, quando Deus nos visita fá-lo sobretudo para nos conceder os Seus dons, comunicar-nos a Sua palavra. Todavia, o que fazemos nós? Escutamos tal como Maria o fez, ou adotamos o lugar de Marta e perdemo-nos nos nossos afazeres? Infelizmente somos mais Martas do que Marias. O equilíbrio é muito difícil de alcançar: obreiros e contemplativos! Quantas vezes partimos para a ação sem antes conversarmos com Deus, sem escutar a Sua voz!
Ó Senhor, concede-me o anelo de Te escutar! Ajuda-me a encontrar o equilíbrio. Ajuda-me a ser mais Maria do que Marta. Faz com que no meio da minha atividade diária, enquanto desempenho o meu ofício de Marta, a minha alma possa permanecer sempre em contemplação, em adoração, imersa, tal como Maria, nessa fonte eterna bebendo avidamente as Tuas palavras!
domingo, 14 de julho de 2013
Domingo, XV do tempo comum
1.ª leitura Dt 30, 10-14;
2.ª leitura Cl 1, 15-20;
Lc 10, 25-35.
1.ª leitura Dt 30, 10-14;
2.ª leitura Cl 1, 15-20;
Lc 10, 25-35.
«Esteja a Vossa palavra, Senhor, na minha boca e no meu coração para a poder cumprir.» (Dt 30, 14)
Deus não se alheou da vida do homem, mas inclinou-se sobre ele e estabeleceu com ele uma aliança. «Hás de ouvir a voz do Senhor, teu Deus, e cumprir os seus ensinamentos e as suas leis.» (Dt 30, 10). Não se trata de uma lei abstrata, imposta a partir de fora, mas sim de dentro, inscrita no coração do ser humano.
O Evangelho deste domingo apresenta-nos Jesus a falar com um doutor da lei sobre o primeiro mandamento: o amor a Deus ao próximo. O doutor interroga Jesus, não pelo desejo de aprender, mas para «O experimentar», e termina a sua consulta com a seguinte pergunta: «Quem é o meu próximo?». Jesus não lhe responde com uma definição, mas com uma história de um infeliz, que foi assaltado, esmurrado por um grupo de salteadores e atirado para uma valeta meio morto. Passam por aquele caminho dois indivíduos -- um sacerdote e um levita -- que o veem, mas seguem o seu caminho sem tão-pouco se preocuparem com ele. Um samaritano passa, apieda-se do pobre infeliz e socorre-o, levando-o até uma estalagem.
A conclusão a que chegamos é clara: não podemos fazer distinções de religião, nem de raça, nem de amigo ou de inimigo. Todo aquele que necessita de ajuda, esse é o nosso próximo, como tal deve ser amado, como se ama cada um a si mesmo.
A parábola de Jesus obriga o doutor da lei a reconhecer que quem cumpriu a lei foi o homem que não era especialista nela, como o sacerdote ou o levita teriam maior responsabilidade em socorrer o ferido. O samaritano, um homem sem instrução, que era visto pelos judeus da época como incrédulo e pecador. Aquele que tem um coração empedernido, é egoísta e olha apenas para o seu umbigo e sempre encontrará desculpas para se ver livre de ajudar o próximo, especialmente se essa ajuda lhe for incómoda e lhe exigir sacrifícios.
«Ó Cristo, ó doce Jesus! Concedei-me essa inefável caridade para que seja perseverante e nunca mude, porque quem possui a caridade, está apoiado em Vós, pedra viva, isto é, aprendeu a amar o seu Criador, seguindo os vossos passos. Em Vós leio a regra e a doutrina que me convém possuir, porque Vós sois o caminho, a verdade e a vida; porque, lendo em Vós, que sois o livro da vida, poderei andar no reto caminho e atender unicamente ao amor de Deus e à salvação do meu próximo.» (Santa Catarina de Sena, Epistolário, 7)
quarta-feira, 6 de março de 2013
Quando a tormenta ameaça a tua vida, encontra dentro de ti, na tua alma, um cantinho reservado e acredita que Deus está contigo, Te acompanha na tua tristeza, na tua angústia, no teu desespero. Também Ele acompanha o teu sofrimento e sofre contigo, porque te ama profunda e infinitamente. Mesmo que não compreendamos os Seus desígnios, mesmo que por vezes não entendemos nem aceitemos o que nos acontece, acredita que Deus, que vê a eternidade, está sempre contigo e tudo o que nos acontece, mesmo que nos desagrade e nos entristeça e nos perturbe, faz parte da vida. Mantém-te unido a Deus por via da oração nos momentos de desespero e verás que aquilo que te atormenta diminui e que através da oração encontrarás alívio e alento.
Deus ama-te, porque Deus é Amor!
«Dizia Job que, se recebemos com alegria os bens de Deus, porque não havemos de receber assim os males?
Mas, acaso tudo isso me impede amá-l'O? Não; devo fazê-lo com loucura.
Vida de amor! Eis a minha regra, o meu voto. Eis a única razão de viver.»
«Quando tenho uma dúvida, alguma coisa em que estou incerto, quando me aperta uma tentação ou me deixo arrastar por alguma fraqueza, procuro fazer um ato de humildade aos pés da tua Cruz e beijar o teu divino Sangue que escorre das chagas dos teus pés, pelo madeiro... e pedir-Te proteção, ajuda e conselho. O que Tu me inspires naquele momento, isso eu faço.»
«O que procura a Deus encontra-O. Para O encontrar é preciso procurá-l'O na Cruz, na renúncia de si mesmo e no sacrifício.»
«Senhor! Só Tu... só Tu permaneces. Nada há debaixo do sol que encha o coração do homem senão Tu! E meu coração está sedento de ti e te procura como o veado as fontes, segundo diz David. Fora do que não és Tu tudo são trevas.»
«Enche, Senhor, o meu coração... enche-o disso que não me podem dar os homens. A minha alma sonha com amores, com carinhos puros e sinceros. Sou um homem feito para amar, mas não às criaturas, apenas a ti, meu Deus, e a elas em ti.
Só a ti quero amar . Só Tu não enganas. Só em ti se verá o desejo cumprido.»
«Quero, Senhor, passar esta quaresma, morrendo pouco a pouco o muito que ainda me falta para viver só para ti, para que algum dia me deixes, Senhor, entrar pela chaga do teu peito e fazer uma celazita junto do teu divino Coração...
Permiti-l'O-ás?
À Santíssima Virgem Maria o peço com fervor.»
Textos de Frei Maria Rafael.
Mas, acaso tudo isso me impede amá-l'O? Não; devo fazê-lo com loucura.
Vida de amor! Eis a minha regra, o meu voto. Eis a única razão de viver.»
«Quando tenho uma dúvida, alguma coisa em que estou incerto, quando me aperta uma tentação ou me deixo arrastar por alguma fraqueza, procuro fazer um ato de humildade aos pés da tua Cruz e beijar o teu divino Sangue que escorre das chagas dos teus pés, pelo madeiro... e pedir-Te proteção, ajuda e conselho. O que Tu me inspires naquele momento, isso eu faço.»
«O que procura a Deus encontra-O. Para O encontrar é preciso procurá-l'O na Cruz, na renúncia de si mesmo e no sacrifício.»
«Senhor! Só Tu... só Tu permaneces. Nada há debaixo do sol que encha o coração do homem senão Tu! E meu coração está sedento de ti e te procura como o veado as fontes, segundo diz David. Fora do que não és Tu tudo são trevas.»
«Enche, Senhor, o meu coração... enche-o disso que não me podem dar os homens. A minha alma sonha com amores, com carinhos puros e sinceros. Sou um homem feito para amar, mas não às criaturas, apenas a ti, meu Deus, e a elas em ti.
Só a ti quero amar . Só Tu não enganas. Só em ti se verá o desejo cumprido.»
«Quero, Senhor, passar esta quaresma, morrendo pouco a pouco o muito que ainda me falta para viver só para ti, para que algum dia me deixes, Senhor, entrar pela chaga do teu peito e fazer uma celazita junto do teu divino Coração...
Permiti-l'O-ás?
À Santíssima Virgem Maria o peço com fervor.»
Textos de Frei Maria Rafael.
«Convençamo-nos de que Deus está connosco em todo o momento; prescindamos das nossas impressões que enganam os nossos sentidos, arrojemos fora de nós o EU que tanto dano nos faz e lancemo-nos nos braços de Deus tal como somos, com fraquezas e virtudes, com pecados e misérias; ponhamos no seu regaço as nossas almas, tanto quando riem como quando choram e, se na verdade, fazemos assim e conseguimos que a nossa vida seja toda para Ele, e Ele o tudo na nossa vida, teremos conseguido a verdadeira paz do coração, estaremos mais perto do Céu que da terra e então... Que mais te faz, irmão Rafael, que chova ou faça sol?» Frei Maria Rafael
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Transfiguração do Senhor
2.º domingo da quaresma
«O Senhor é a minha luz e a minha salvação. Não afasteis com ira o vosso rosto.» (Salmo 27, 1.9)
A primeira leitura deste domingo, Génesis 15, 5-12.17-18, descreve a aliança de Deus com Abraão de forma explícita: «Olha para o céu e conta o número de estrelas, se as puderes contar. (...) Assim será a tua descendência.» (Idem.)
A segunda leitura, epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses (3,20-4,1), é uma exortação a carregar com amor a Cruz de Cristo, para poder participar um dia na Sua glória. «Muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo.» (Idem.)
São Paulo queixa-se dos cristãos que se entregam aos prazeres terrenos, às satisfações da carne, com o pensamento apenas voltado para as preocupações terrenas.
O evangelho deste domingo, Lucas 9,28b-36, descreve a transfiguração do Senhor. Jesus acompanhado por Pedro, Tiago e João, sobe a um monte para orar e durante o momento da oração, o Seu rosto alterou-se e as Suas vestes «ficaram de uma brancura refulgente» (idem). Os três discípulos sentem-se tão bem que dizem a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias.» (idem). No momento em que Pedro proferiu estas palavras, veio uma nuvem que os cobriu e os discípulos tiveram medo quando entraram na nuvem. Mas da nuvem saiu uma voz: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O.» E a seguir, o evangelho relata-nos que «quando a voz se fez ouvir, Jesus estava sozinho.»
Este trecho tem-me levantado questões. Jesus fez-se acompanhar por três discípulos: Pedro, João e Tiago. A nuvem cobriu todos com a sua sombra. Todos estavam dentro da nuvem e todos escutaram a voz, a Voz de Deus, que lhes disse que Aquele era o Seu Filho, o Seu eleito, que O deviam escutar. Porém, na frase imediatamente a seguir, o evangelista diz-nos que no momento em que Deus falava, Jesus estava sozinho!
Porque relata este facto o evangelista, se os três discípulos estavam com Jesus?
Da minha meditação cheguei a uma possível conclusão: Os três discípulos estavam a acompanhar Jesus, fisicamente sim, mas não espiritualmente. Isto é, os três discípulos desejavam passar imediatamente à glória sem o caminho do calvário e do sofrimento da Cruz. Possivelmente é por isto que o evangelista enfatiza que Jesus estava sozinho, como efetivamente assim aconteceu, dias depois, com a condenação e crucificação de Jesus.
O nosso caminho do calvário a carregar a nossa cruz é, sem dúvida, um caminho solitário. Sentimo-nos sós, desamparados. Porém, não estamos sozinhos. A nossa solidão é aparente, uma vez que é uma solidão acompanhada, porque Jesus nos ajuda a carregar a nossa cruz. E é precisamente aqui na terra que podemos iniciar a nossa transfiguração, para nos tornarmos semelhantes a Jesus se aceitarmos levar a cruz com Ele, se aceitarmos fazer-Lhe companhia assim como Lhe fez o «discípulo que Jesus amava». A tradição indica-nos que este discípulo amado de Jesus e que nunca o seu nome foi referenciado no evangelho, é João. Todavia e sem pretensões vaidosas, eu gosto de pensar e acreditar que esse discípulo sou eu. E se pensarmos que esse discípulo pode ser cada um de nós, acompanhamos Jesus a carregar a cruz pelas ruas, aceitamos com Jesus sermos pregados na cruz, porque seremos transformados n'Ele e assim poderemos fazer eco com São Paulo «Já não sou eu que vivo. É Deus que vive em mim».
Nesta quaresma, façamos companhia a Jesus. Sejamos o discípulo que não O abandonou na cruz sozinho, que foi o primeiro a reconhecê-l'O depois da ressurreição. Ao fazer-Lhe companhia, através da oração, do jejum e da penitência, a nossa cruz torna-se mais leve, as nossas preocupações diminuem e as nossas angústias transformar-se-ão em esperança, porque com tal fiel Amigo como companhia, nada devemos temer!
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Evangelho do dia
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.» E dirigindo-se a todos, disse: «Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, tem de perdê-la; mas quem quer perder a vida por minha causa salvá-la-á. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou arruinar-se a si próprio?» (Lc 9, 22-25)
Quem não se deixa seduzir por tal pedido? Jesus pede-me que renuncie a mim mesma, a tomar a minha cruz todos os dias e a segui-lo. É deveras um convite sedutor, mas difícil de concretizar ou de levar até ao fim, porque significa dizer não ao meu egoísmo, ao meu interesse, ao meu pequeno mundo, às minhas exigências, ao mesmo gosto pela ociosidade. Pede-me que renuncie a tudo, tome a minha cruz e O siga quando o mundo à minha volta me convida a não perder as ocasiões que me fazem saborear a vida, a ser ambiciosa, a condescender com paixões de vária ordem, a vacilar.
Todavia, escolher a vida é seguir Jesus, é renunciando-se a si mesmo e pegando na cruz; não é a renúncia e a mortificação por si mesmas que têm valor, mas sim o abraçá-las por amor a Jesus, «por Mim», disse.
Que Jesus me(nos) ajude e auxilie a renunciar a mim(nós) mesmo(s) e a tomar a minha (nossa) cruz de todos os dias e sigamo-l'O, com esperança, alegria e infinita bondade. Afinal, temos o nosso Mestre como comandante do nosso navio e com tal Ilustre Guia, nada nos faltará.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
A cinza
A cinza colocada sobre a fronte dos fiéis, umas partículas de pó tão leves que basta um pequenino sopro para as dispersar, lembra bem aos fiéis que o homem não é nada, apenas pó e cinza. Bastaria este pequeno pensamento para nos consciencializar para a nossa existência.
Hoje a Igreja convida todos os fiéis a curvarem a cabeça para receber a cinza em sinal de humildade e um pedido de perdão pelos pecados.
Este ritual de imposição da cinza não é antiquado ou caduco, pelo contrário, prima pela modernidade e dá início ao tempo da Quaresma, um tempo forte do ano litúrgico, que prepara os fiéis para a celebração do Mistério Pascal, tempo oportuno para a renovação espiritual com o auxílio da oração, com o jejum e espalhando caridade. «Agora é tempo de graça e salvação.» (2Cor, 5,20-6,2)
«Senhor, hoje recordas-nos que somos pecadores,
convidando-nos à conversão radical das nossas vidas.
Hoje dizes-nos: Convertei-vos e acreditai no evangelho.
É uma ordem de libertação de tudo o que nos degrada.
Eis aqui a tarefa da Quaresma no caminho para a Páscoa.
A cinza é garantia de ressurreição do homem novo.
Queremos despojar-nos da hipocrisia que nos corrói:
que saibamos procurar-te e agradar-te em segredo.
Queremos refazer a nossa opção batismal
para chegar à noite da vigília pascal
como homens e mulheres novos, renascidos do teu Espírito.»
A Palavra de cada Dia
Uma Santa Quaresma a tod@s @s leitora(e)s deste blogue.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Oração
Pai Santo, que, por intermédio do Vosso Filho Nosso Senhor Jesus Cristo, me regenerastes pela água e pelo Espírito Santo, concedei-me o perdão de todos os meus pecados e dignai-Vos ungir-me com o carisma do Vosso Espírito para a vida eterna.
Ó Jesus, sol de justiça, revesti-me de Vós para viver segundo a Vossa vontade. Ó Jesus, luz inextinguível, acendei em mim a lâmpada da Vossa caridade e ensinai-me a guardar irrepreensivelmente a graça do meu batismo, para que, quando for chamada às Vossas bodas, mereça participar nas delícias da vida eterna, para Vos contemplar a Vós, luz verdadeira, e ao encanto do Vosso rosto divino.
Ó Jesus benigno, doce hóspede da alma, que esta suave união convosco seja para a remissão dos meus pecados, reparação de toda a imperfeição e resgate de tudo o que perdi. Seja para mim salvação eterna, renovação da virtude e consumação feliz da vida; seja liberdade de espírito, santidade da vida, honestidade de costumes; seja escudo de paciência, bandeira de humildade, ajuda para a confiança, consolação na tristeza, apoio na perseverança; seja fortaleza de fé, solidez de esperança, perfeição de caridade, cumprimento dos Vossos mandamentos, renovação do espírito e a minha verdadeira santificação seja fonte de virtudes, estímulo para o bem e a recordação perene do Vosso amor.
Santa Gertrudes, Exercícios Espirituais.
Ámem
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
A Oração
A Quaresma está à porta. Tempo de oração, jejum e caridade.
Voltemo-nos para a Oração.
Através da oração, voltamo-nos para Deus. Dizemos-Lhe aquilo que nos move: as nossas alegrias, as nossas tristezas, as nossas aspirações, os nossos medos.
É claro que não sentimos Deus como nosso interlocutor que nos dá uma resposta direta e pronta. Mas somente pela circunstância de nos sentarmos, ou nos ajoelharmos diante d'Ele e encetarmos este diálogo com Ele, nos faz bem, porque a oração pode ser uma conversa. Nela conversamos com Deus e dizemos-Lhe tudo o que nos vai na alma. Tal como nas conversas com os nossos amigos terrenos, umas vezes falamos nós, noutras escutamos. Com Deus é igual. Ora falamos nós a Deus, ora, nos silêncios, diante de Deus e apresentando-Lhe o que nos vem à memória, ao pensamento no momento, escutamos aquilo que Deus tem para nos dizer, aquilo que Deus nos responde. Todavia, não O faz por meio de palavras, mas frequentemente por pensamentos e sentimentos que nos vêm à ideia, desde que Lhe abramos as portas aos nossos desejos, o nosso coração.
Porém, como podemos saber se efetivamente aqueles sentimentos vêm de Deus e não do nosso ego? Ora só vem de Deus sentimentos e pensamentos que nos alargam o coração, que nos enchem de amor e de paz. Tudo o que nos constrange, nos faz ter medo, só pode vir de dentro de nós mesmos.
O filósofo judeu Abraham J. Heschel disse o seguinte a respeito da oração: «Rezar significa agarrarmo-nos a uma palavra, à extremidade de uma corda que, de algum modo, conduz a Deus. Quanto maior for a força, maior a subida que o eco da palavra cai como um fio de prumo no interior da pessoa. Quanto mais pura for a disposição, mais profundo penetra na palavra.»
Assim, a oração conduz-nos cada vez mais perto de Deus, mas também permite conhecermo-nos melhor, aprofundarmos o nosso eu, a nossa essência interior, ajuda-nos a penetrar mais profundamente em nós mesmos.
Mais quero viver e morrer a pretender e esperar a vida eterna, que possuir todas as criaturas e todos os seus bens que hão de acabar. Não me desampares, SSenhor, porque em ti espero: não seja confundida a minha esperança.
Ó irmãos, ó irmãos e filhos deste Deus! Esforcemo-nos, pois sabemos que Sua Majestade disse que, em pesando-nos de O ter ofendido, não Se recordará das nossas culpas e maldades. Oh, que piedade tão sem medida! Que mais queremos? Há, por ventura, quem não tivesse vergonha de pedir tanto? Agora é tempo de aceitar o que nos dá o Senhor piedoso e nosso Deus. Quer amizade; quem a negará a Quem não negou derramar todo o Seu sangue e perder a vida por nós?
Santa Teresa de Jesus, Exclamações
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Os desígnios de Deus são insondáveis... quantas vezes li isto sem entender verdadeiramente o seu significado. Nós olhamos para a vida com olhos temporais e desejamos e pedimos a Deus coisas que quando não as temos, nos revoltamos contra Ele. Porém, Deus olha para a nossa vida com olhos de eternidade. Daí o desaguisado!
Com o batismo tornei-me católica e uma filha de Deus. Há medida que fui crescendo em idade, tamanho e entendimento fui adquirindo capacidades que me foram abrindo portas ao conhecimento. Na adolescência deixei-me seduzir pelo mundo, pela caducidade deste mundo frenético, individualista, frívolo e muito pouco caridoso.
A minha alma de crente sofreu avanços e recuos. Infelizmente mais recuos que avanços... A vida encheu-se de reveses e nesses momentos menos felizes e menos agradáveis voltava-me para Deus e discutia com Ele. Até que um dia eu me predispus a abrir a porta a Deus. Abri-a de par em par para que a Luz penetrasse totalmente na minha alma e a aquecesse com o fogo reparador e abrasador que só Deus é capaz de dar, e a minha alma deixou de ter frio.
Deixei de ser seduzida pelo mundo e passei a olhá-lo como ele é: uma peregrinação; um caminho ora reto ora sinuoso; por vezes com dolorosas subidas e vertiginosas descidas. Mas sei que na minha caminhada tenho ao meu lado o maior Amigo que um ser humano pode ter: Deus!
Ele ampara-me nas minhas dolorosas descidas. Nos trilhos mais tenebrosos e escuros Ele é o meu guia e não me deixa cair nem tropeçar. Rejubila comigo quando estou alegre, sofre comigo quando estou triste. Haverá alguém mais amigo do que Deus? Não, não há. Porque Deus está sempre presente, sempre disposto a ouvir os meus lamentos, as minhas angústias, as minhas alegrias, as minhas más disposições e as minhas alterações de humor. Sem que eu o mereça Deus é meu Amigo. Mais: está 24 horas por dia disponível para me ouvir e não é necessário telemóvel, Internet ou qualquer outro meio de comunicação. Basta que eu comece a falar com Ele, como se fala com um grande amigo por quem se tem uma estima infinita, e Ele ouve-me e atende os meus pedidos, as minhas súplicas. Está 24 horas por dia sempre comigo. Quem é o amigo terreno que está assim connosco?
Se as pessoas soubessem como Deus é maravilhoso, possivelmente o mundo seria bem diferente do que é. Deus enche-nos totalmente. Preenche plenamente o nosso coração e todo aquele que deseja a Deus não tem na alma tristeza, amargura ou inquietação que perturbem a paz. Porém, as pessoas estão muito ocupadas com a sedução do mundo, tal como eu também estive durante demasiado tempo e sofri desnecessariamente acabando por nada resolver, somente me desgastando.
Por isso, agora, fecho os olhos e deixo-me levar por Deus, porque somente Ele sabe o que me convém. Deixo-me ser conduzida por Ele e estou certa de que o meu Amigo, infinitamente misericordioso, me levará por caminhos suaves, ainda que à primeira vista me possa parecer que os meus desejos estejam a ser contrariados, porque para o crescimento interior acontecer são necessários sorrisos e lágrimas, ora uns, ora outros, á semelhança dos dias uns de sol, outros de chuva e a sequência de uns e outros fazem parte da nossa peregrinação por este mundo.
Por agora termino com uma frase do Beato Maria Rafael:
«Procura o Coração de Deus, que esse é insondável, funde-te com Ele e não olhes nem busques outra coisa.»
domingo, 27 de janeiro de 2013
Excerto da carta de Isabel da Trindade à sua amiga Francisca
«É preciso que edifiques, como eu, uma celazinha no interior da tua alma; pensarás que o bom Deus está lá e aí entrarás de tempos a tempos; logo que sentires os teus nervos, ou que estás triste, depressa, refugia-te lá e confia tudo isso ao Mestre. Ah, se tu o conhecesses um pouco, a oração já não te causaria tédio; parece-me que é um repouso, um alívio: chega-se muito simplesmente ao pé d'Aquele que se ama, e está-se junto d'Ele como uma criancinha nos braços de sua mãe e dá-se largas ao coração.»
«Oh, minha querida, como se é feliz quando se vive em intimidade com o bom Deus, quando se faz da sua vida um face a face, uma permuta de amor, quando se sabe encontrar o Mestre no fundo da alma. Então, nunca mais se está só e tem-se necessidade de solidão para fruir a presença deste Hóspede adorado. estás a ver, minha Framboesa, é preciso que lhe dês esse lugar na tua vida, no teu coração que Ele tornou tão amante, tão apaixonado. Oh! Se soubesses como Ele é bom, como Ele é todo Amor!» (In Isabel da Trindade)
sábado, 26 de janeiro de 2013
Palavras para sempre
«Quando a alma chega a acreditar neste "demasiado grande amor" que está nela, já não detém mais nos gostos, nos sentimentos; pouco lhe importando sentir ou não Deus, ou sequer se Ele lhe dá alegria ou sofrimento: crê apenas no seu amor. Quanto mais provada é, mais a fé cresce, porque atravessa, por assim dizer, todos os obstáculos para se ir repousar no seio do infinito Amor, que já não pode senão produzir obras de amor. Também a esta alma inteiramente desperta na fé a voz do mestre pode ainda dizer, no segredo íntimo, esta palavra que um dia dirigiu a Maria Madalena: "Vai em paz, a tua fé te salvou".» (In Isabel da Trindade)
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Fixa o teu olhar no espelho da eternidade, deixa a tua alma banhar-se no esplendor da glória e une o teu coração Àquele que é encarnação da essência divina, para que, contemplando-O, te transformes inteiramente na imagem da sua divindade. Assim, também tu poderás experimentar o que só os amigos podem sentir quando saboreiam a doçura escondida que Deus reserva desde toda a eternidade àqueles que O amam. Despreza tudo o que neste mundo de enganos e perturbações cega o coração dos homens e ama de todo o coração Aquele que se entregou por teu amor e cuja beleza o sol e a lua contemplam. A grandeza e a abundância das suas recompensas não têm limites.
Santa Clara de Assis, Cartas de Santa Clara
«Que falsidade dizer que nada tem o que tem a Deus!...
Sim! Porque calá-lo?... Porque ocultá-lo?... Porque não gritar ao mundo inteiro e publicar aos quatro ventos as maravilhas de Deus? Porque não dizer aos povos e a todo o que queira ouvi-lo: Vês o que sou? Vês o que fui? Vês a minha miséria arrastada pela lama?... pois não importa; maravilhai-vos; apesar de tudo tenho Deus... Deus é meu amigo!
Que se afunde o sol e se seque o mar de assombro!
Deus quer-me tão entranhadamente que, se o mundo inteiro o compreendesse, ficariam loucas todas as criaturas e bramiriam de pasmo. Ainda mais... tudo isso é pouco.
Que doce é viver assim, só com Deus dentro do coração! Que suavidade tão grande é ver-se cheio de Deus! Que fácil deve ser morrer assim!
Só Deus enche a alma! E enche-a toda!
Que venham os sábios perguntar onde está Deus. Deus está onde o sábio, com a ciência soberba, não pode chegar.
Deus está no coração desprendido, no silêncio da oração, no sacrifício voluntário da dor, no vazio do mundo e suas criaturas.
Deus está na Cruz, e enquanto não amarmos a Cruz, não o veremos, não o sentiremos.
Calem-se os homens, que outra coisa não fazem que ruído!
Que me importa o que façam ou digam os homens? Para mim não deve haver no mundo mais que uma coisa... Deus...
Deus que me vai ordenando tudo para meu bem.
Deus que faz nascer em cada manhã o sol, que desfaz o orvalho, que faz cantar os pássaros e vai mudando em mil suaves cores as nuvens do céu...
Deus que me oferece um cantinho na terra para orar, que me dá um lugar onde possa esperar o que espero...
Deus tão bom para mim que, no silêncio, me fala ao coração, e me vai ensinando, pouco a pouco, talvez com lágrimas, sempre com a Cruz, a desprendê-lo das criaturas, a não procurar a perfeição senão nele..., a mostrar-me Maria e a dizer-me: Está aqui a única Criatura Perfeita..., nela encontrarás o amor e a caridade que não encontras nos homens.
De que te queixas, irmão Rafael? Ama-me, sofre comigo, sou Jesus. Ah! Virgem Maria... está aqui a grande misericórdia de Deus... está aqui como Deus vai trabalhando na minha alma, umas vezes na desilusão, outras no consolo; mas sempre para ensinar-me que só nele tenho de pôr o coração, que só nele tenho de viver, que só nele hei de amar, de querer, de esperar..., em pura fé, sem consolação nem ajuda de criatura humana.»
Frei Maria Rafael, Pensamentos
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Ó Jesus, meu Senhor! Eu consagro-me e me abandono à sabedoria suprema e incomunicável a qualquer criatura, ao poder sublime, absoluto e particular sobre toda a criação que possui a tua humanidade, em virtude da condição admirável e adorável da filiação divina.
Ofereço-me e consagro-me todo a Ti.. e desejo que Tu tenhas um poder especial sobre a minha alma e a minha condição, sobre a minha vida e os meus atos, como sobre uma coisa que Te pertence por um direito novo e particular, em virtude do ato da minha espontânea vontade, pelo qual quero depender sempre da tua soberania.
E, porque o teu poder excede infinitamente o nosso, peço-Te, ó Jesus, que assumas Tu mesmo todo o poder que eu não sou capaz de te dar. Aceita-me como teu súbdito e teu escravo, ainda que seja de maneira incompreensível para mim, mas que Tu bem conheces. (P. de Bèrulle, As Grandezas de Jesus)
Evangelho do dia
Naquele tempo, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se deles, pois eram como ovelhas sem pastor. Começou então a ensiná-los, demoradamente. Como a hora ia já muito adiantada, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-lhe: «O local é deserto e a hora vai adiantada. Manda-os embora, para irem aos casais e aldeias mais próximas comprar de comer.» Jesus respondeu-lhes: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» Disseram-Lhes eles: «Havemos de ir comprar duzentos denários de pão, para lhes darmos de comer?» Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes? Ide ver.» Eles foram verificar e responderam: «Temos cinco pães e dois peixes.» Ordenou-lhes então que os fizessem sentar a todos, por grupos, sobre a verde relva. Eles sentaram-se, repartindo-se em grupos de cem e de cinquenta. Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou a bênção. Depois partiu os pães e foi-os dando aos discípulos, para que eles os distribuíssem. Repartiu por todos também os peixes. Todos comeram até ficarem saciados; e encheram ainda doze cestos com os pedaços de pão e de peixe. Os que comeram dos pães eram cinco mil homens. (Marcos 6, 34-44)
Jesus compadeceu-se daquela multidão que Lhe pareceram ovelhas perdidas, desnorteadas e abandonadas, sem pastor. E começou então a ensiná-los, a orientá-los, a guiá-los, porque somente guiados por tal Pastor, ensinados por tão ilustre Mestre é que podemos encontrar o caminho que nos levará à casa do Pai. Jesus é o único capaz de saciar a nossa fome e a nossa sede, fonte inesgotável de água límpida e fresca. Apenas Ele é capaz de nos oferecer a palavra que nos consola, nos encoraja e nos acompanha. Porque:
O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.
Ele me guia por sendas direitas,
por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
Para mim preparais a mesa,
à vista dos meus adversários:
com óleo me perfumais a cabeça
e o meu cálice transborda.
A bondade e a graça hão de acompanhar-me,
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor,
para todo o sempre. (Salmo 22)
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
João, 15
«Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. (...)
Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer.» João, 15, 1-2.4-5
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Suave milagre
Entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara, para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara, dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada.
E, sobre ambos, espessamente a miséria cresceu, como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!
Um dia, um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, desse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de abundância maior que a corte de Salomão.
A mulher escutava com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava?
O mendigo suspirou. Ah! esse doce rabi! Quantos O desejavam, que se desesperançavam! A Sua fama andava por sobre toda a Judeia como o sol, que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas, para enxergar a claridade do Seu rosto, só aqueles ditosos que o Seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia, para que procurassem Jesus, O chamassem com promessas a Enganim; Septimus, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus e O conduzissem por seu mando a Cesareia. Errando, esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Septimus. E todos voltavam como derrotados, com as sandálias rotas, sem terem descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.
A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada.
-- Oh, filho! E como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areias e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Septimus é forte e tem soldados e debalde correram por Jesus, desde Hébron até ao mar! Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe, e a nossa dor mora connosco dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que O encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por Quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho, tão pobre, sobre enxerga tão rota?
A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
-- Oh, mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
-- Oh, meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh, filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes O encontram. O Céu O trouxe, o Céu O levou. E com Ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
Dentre os negros trapos, erguendo as usas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
-- Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
-- Aqui estou.»
Eça de Queirós, Contos.
Santa Maria
«De hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações».
Nós te saudamos Maria, Mãe de Deus, tesouro escondido de todo o universo, astro sem declínio, coroa da virgindade, ceptro da fé ortodoxa, templo indestrutível, morada do incomensurável, Mãe e Virgem, por quem é chamado «bendito», nos santos evangelhos, «Aquele que vem em nome do Senhor» (Mt, 9; Sl 117,26).
Saudamos-te, a ti que levaste no teu seio virginal Aquele que os céus não podem conter. Graças a ti, a Trindade é glorificada e adorada em toda a terra; graças a ti, o céu exulta, os anjos e os arcanjos se alegram, os demónios são afugentados, o tentador caiu do céu, os homens decaídos são elevados ao céu. Graças a ti, o mundo inteiro, cativo da idolatria, chegou ao conhecimento da verdade, o santo Batismo é dado, com o «óleo da alegria» (Sl 45,8), àqueles que acreditam, foram fundadas igrejas em todo o mundo, as nações pagãs foram levadas à conversão.
E que mais poderei dizer? Foi graças a ti que a luz do Filho único de Deus brilhou para «aqueles que viviam nas trevas e nas sombras da morte» (Lc 1,79; Is 42,7). [...] Quem poderá celebrar dignamente os louvores a Maria? Ela é ao mesmo tempo mãe e virgem. Que maravilha! Quem jamais vez ouviu dizer que o construtor pudesse ser impedido de morar no templo que ele
mesmo construiu? Quem ousaria criticar Aquele que dá à Sua serva (cf. Lc 1,48) o título de mãe?Eis que assim o mundo inteiro se alegra. [...] Que nos seja permitido, isto é, à santa Igreja, venerar e honrar a Trindade indivisa cantando louvores a Maria sempre Virgem e ao seu Filho e seu Esposo imaculado.
Homilia proferida no Concílio de Éfeso, em 431, atribuída a São Cirilo de Alexandria (380-444), bispo e doutor da Igreja.
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