2.º domingo da quaresma
«O Senhor é a minha luz e a minha salvação. Não afasteis com ira o vosso rosto.» (Salmo 27, 1.9)
A primeira leitura deste domingo, Génesis 15, 5-12.17-18, descreve a aliança de Deus com Abraão de forma explícita: «Olha para o céu e conta o número de estrelas, se as puderes contar. (...) Assim será a tua descendência.» (Idem.)
A segunda leitura, epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses (3,20-4,1), é uma exortação a carregar com amor a Cruz de Cristo, para poder participar um dia na Sua glória. «Muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo.» (Idem.)
São Paulo queixa-se dos cristãos que se entregam aos prazeres terrenos, às satisfações da carne, com o pensamento apenas voltado para as preocupações terrenas.
O evangelho deste domingo, Lucas 9,28b-36, descreve a transfiguração do Senhor. Jesus acompanhado por Pedro, Tiago e João, sobe a um monte para orar e durante o momento da oração, o Seu rosto alterou-se e as Suas vestes «ficaram de uma brancura refulgente» (idem). Os três discípulos sentem-se tão bem que dizem a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias.» (idem). No momento em que Pedro proferiu estas palavras, veio uma nuvem que os cobriu e os discípulos tiveram medo quando entraram na nuvem. Mas da nuvem saiu uma voz: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O.» E a seguir, o evangelho relata-nos que «quando a voz se fez ouvir, Jesus estava sozinho.»
Este trecho tem-me levantado questões. Jesus fez-se acompanhar por três discípulos: Pedro, João e Tiago. A nuvem cobriu todos com a sua sombra. Todos estavam dentro da nuvem e todos escutaram a voz, a Voz de Deus, que lhes disse que Aquele era o Seu Filho, o Seu eleito, que O deviam escutar. Porém, na frase imediatamente a seguir, o evangelista diz-nos que no momento em que Deus falava, Jesus estava sozinho!
Porque relata este facto o evangelista, se os três discípulos estavam com Jesus?
Da minha meditação cheguei a uma possível conclusão: Os três discípulos estavam a acompanhar Jesus, fisicamente sim, mas não espiritualmente. Isto é, os três discípulos desejavam passar imediatamente à glória sem o caminho do calvário e do sofrimento da Cruz. Possivelmente é por isto que o evangelista enfatiza que Jesus estava sozinho, como efetivamente assim aconteceu, dias depois, com a condenação e crucificação de Jesus.
O nosso caminho do calvário a carregar a nossa cruz é, sem dúvida, um caminho solitário. Sentimo-nos sós, desamparados. Porém, não estamos sozinhos. A nossa solidão é aparente, uma vez que é uma solidão acompanhada, porque Jesus nos ajuda a carregar a nossa cruz. E é precisamente aqui na terra que podemos iniciar a nossa transfiguração, para nos tornarmos semelhantes a Jesus se aceitarmos levar a cruz com Ele, se aceitarmos fazer-Lhe companhia assim como Lhe fez o «discípulo que Jesus amava». A tradição indica-nos que este discípulo amado de Jesus e que nunca o seu nome foi referenciado no evangelho, é João. Todavia e sem pretensões vaidosas, eu gosto de pensar e acreditar que esse discípulo sou eu. E se pensarmos que esse discípulo pode ser cada um de nós, acompanhamos Jesus a carregar a cruz pelas ruas, aceitamos com Jesus sermos pregados na cruz, porque seremos transformados n'Ele e assim poderemos fazer eco com São Paulo «Já não sou eu que vivo. É Deus que vive em mim».
Nesta quaresma, façamos companhia a Jesus. Sejamos o discípulo que não O abandonou na cruz sozinho, que foi o primeiro a reconhecê-l'O depois da ressurreição. Ao fazer-Lhe companhia, através da oração, do jejum e da penitência, a nossa cruz torna-se mais leve, as nossas preocupações diminuem e as nossas angústias transformar-se-ão em esperança, porque com tal fiel Amigo como companhia, nada devemos temer!
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