domingo, 24 de fevereiro de 2013

Transfiguração do Senhor


2.º domingo da quaresma

«O Senhor é a minha luz e a minha salvação. Não afasteis com ira o vosso rosto.» (Salmo 27, 1.9)

A primeira leitura deste domingo, Génesis 15, 5-12.17-18, descreve a aliança de Deus com Abraão de forma explícita: «Olha para o céu e conta o número de estrelas, se as puderes contar. (...) Assim será a tua descendência.» (Idem.)

A segunda leitura, epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses (3,20-4,1), é uma exortação a carregar com amor a Cruz de Cristo, para poder participar um dia na Sua glória. «Muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo.» (Idem.)
São Paulo queixa-se dos cristãos que se entregam aos prazeres terrenos, às satisfações da carne, com o pensamento apenas voltado para as preocupações terrenas.

O evangelho deste domingo, Lucas 9,28b-36, descreve a transfiguração do Senhor. Jesus acompanhado por Pedro, Tiago e João, sobe a um monte para orar e durante o momento da oração, o Seu rosto alterou-se e as Suas vestes «ficaram de uma brancura refulgente» (idem). Os três discípulos sentem-se tão bem que dizem a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias.» (idem). No momento em que Pedro proferiu estas palavras, veio uma nuvem que os cobriu e os discípulos tiveram medo quando entraram na nuvem. Mas da nuvem saiu uma voz: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O.» E a seguir, o evangelho relata-nos que «quando a voz se fez ouvir, Jesus estava sozinho.»

Este trecho tem-me levantado questões. Jesus fez-se acompanhar por três discípulos: Pedro, João e Tiago. A nuvem cobriu todos com a sua sombra. Todos estavam dentro da nuvem e todos escutaram a voz, a Voz de Deus, que lhes disse que Aquele era o Seu Filho, o Seu eleito, que O deviam escutar. Porém, na frase imediatamente a seguir, o evangelista diz-nos que no momento em que Deus falava, Jesus estava sozinho! 
Porque relata este facto o evangelista, se os três discípulos estavam com Jesus?
Da minha meditação cheguei a uma possível conclusão: Os três discípulos estavam a acompanhar Jesus, fisicamente sim, mas não espiritualmente. Isto é, os três discípulos desejavam passar imediatamente à glória sem o caminho do calvário e do sofrimento da Cruz. Possivelmente é por isto que o evangelista enfatiza que Jesus estava sozinho, como efetivamente assim aconteceu, dias depois, com a condenação e crucificação de Jesus.
O nosso caminho do calvário a carregar a nossa cruz é, sem dúvida, um caminho solitário. Sentimo-nos sós, desamparados. Porém, não estamos sozinhos. A nossa solidão é aparente, uma vez que é uma solidão acompanhada, porque Jesus nos ajuda a carregar a nossa cruz. E é precisamente aqui na terra que podemos iniciar a nossa transfiguração, para nos tornarmos semelhantes a Jesus se aceitarmos levar a cruz com Ele, se aceitarmos fazer-Lhe companhia assim como Lhe fez o «discípulo que Jesus amava». A tradição indica-nos que este discípulo amado de Jesus e que nunca o seu nome foi referenciado no evangelho, é João. Todavia e sem pretensões vaidosas, eu gosto de pensar e acreditar que esse discípulo sou eu. E se pensarmos que esse discípulo pode ser cada um de nós, acompanhamos Jesus a carregar a cruz pelas ruas, aceitamos com Jesus sermos pregados na cruz, porque seremos transformados n'Ele e assim poderemos fazer eco com São Paulo «Já não sou eu que vivo. É Deus que vive em mim».

Nesta quaresma, façamos companhia a Jesus. Sejamos o discípulo que não O abandonou na cruz sozinho, que foi o primeiro a reconhecê-l'O depois da ressurreição. Ao fazer-Lhe companhia, através da oração, do jejum e da penitência, a nossa cruz torna-se mais leve, as nossas preocupações diminuem e as nossas angústias transformar-se-ão em esperança, porque com tal fiel Amigo como companhia, nada devemos temer!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Evangelho do dia

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.» E dirigindo-se a todos, disse: «Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, tem de perdê-la; mas quem quer perder a vida por minha causa salvá-la-á. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou arruinar-se a si próprio?» (Lc 9, 22-25)

Quem não se deixa seduzir por tal pedido? Jesus pede-me que renuncie a mim mesma, a tomar a minha cruz todos os dias e a segui-lo. É deveras um convite sedutor, mas difícil de concretizar ou de levar até ao fim, porque significa dizer não ao meu egoísmo, ao meu interesse, ao meu pequeno mundo, às minhas exigências, ao mesmo gosto pela ociosidade. Pede-me que renuncie a tudo, tome a minha cruz e O siga quando o mundo à minha volta me convida a não perder as ocasiões que me fazem saborear a vida, a ser ambiciosa, a condescender com paixões de vária ordem, a vacilar.
Todavia, escolher a vida é seguir Jesus, é renunciando-se a si mesmo e pegando na cruz; não é a renúncia e a mortificação por si mesmas que têm valor, mas sim o abraçá-las por amor a Jesus, «por Mim», disse.
Que Jesus me(nos) ajude e auxilie a renunciar a mim(nós) mesmo(s) e a tomar a minha (nossa) cruz de todos os dias e sigamo-l'O, com esperança, alegria e infinita bondade. Afinal, temos o nosso Mestre como comandante do nosso navio e com tal Ilustre Guia, nada nos faltará.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A cinza

A cinza colocada sobre a fronte dos fiéis, umas partículas de pó tão leves que basta um pequenino sopro para as dispersar, lembra bem aos fiéis que o homem não é nada, apenas pó e cinza. Bastaria este pequeno pensamento para nos consciencializar para a nossa existência. 
Hoje a Igreja convida todos os fiéis a curvarem a cabeça para receber a cinza em sinal de humildade e um pedido de perdão pelos pecados. 
Este ritual de imposição da cinza não é antiquado ou caduco, pelo contrário, prima pela modernidade e dá início ao tempo da Quaresma, um tempo forte do ano litúrgico, que prepara os fiéis para a celebração do Mistério Pascal, tempo oportuno para a renovação espiritual com o auxílio da oração, com o jejum e espalhando caridade. «Agora é tempo de graça e salvação.» (2Cor, 5,20-6,2)

«Senhor, hoje recordas-nos que somos pecadores,
convidando-nos à conversão radical das nossas vidas.
Hoje dizes-nos: Convertei-vos e acreditai no evangelho.
É uma ordem de libertação de tudo o que nos degrada.
Eis aqui a tarefa da Quaresma no caminho para a Páscoa.

A cinza é garantia de ressurreição do homem novo.
Queremos despojar-nos da hipocrisia que nos corrói:
que saibamos procurar-te e agradar-te em segredo.

Queremos refazer a nossa opção batismal
para chegar à noite da vigília pascal
como homens e mulheres novos, renascidos do teu Espírito.»
A Palavra de cada Dia

Uma Santa Quaresma a tod@s @s leitora(e)s deste blogue.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Oração

Pai Santo, que, por intermédio do Vosso Filho Nosso Senhor Jesus Cristo, me regenerastes pela água e pelo Espírito Santo, concedei-me o perdão de todos os meus pecados e dignai-Vos ungir-me com o carisma do Vosso Espírito para a vida eterna.
Ó Jesus, sol de justiça, revesti-me de Vós para viver segundo a Vossa vontade. Ó Jesus, luz inextinguível, acendei em mim a lâmpada da Vossa caridade e ensinai-me a guardar irrepreensivelmente a graça do meu batismo, para que, quando for chamada às Vossas bodas, mereça participar nas delícias da vida eterna, para Vos contemplar a Vós, luz verdadeira, e ao encanto do Vosso rosto divino.
Ó Jesus benigno, doce hóspede da alma, que esta suave união convosco seja para a remissão dos meus pecados, reparação de toda a imperfeição e resgate de tudo o que perdi. Seja para mim salvação eterna, renovação da virtude e consumação feliz da vida; seja liberdade de espírito, santidade da vida, honestidade de costumes; seja escudo de paciência, bandeira de humildade, ajuda para a confiança, consolação na tristeza, apoio na perseverança; seja fortaleza de fé, solidez de esperança, perfeição de caridade, cumprimento dos Vossos mandamentos, renovação do espírito e a minha verdadeira santificação seja fonte de virtudes, estímulo para o bem e a recordação perene do Vosso amor.
Santa Gertrudes, Exercícios Espirituais.

Ámem

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A Oração

A Quaresma está à porta. Tempo de oração, jejum e caridade.

Voltemo-nos para a Oração.

Através da oração, voltamo-nos para Deus. Dizemos-Lhe aquilo que nos move: as nossas alegrias, as nossas tristezas, as nossas aspirações, os nossos medos.
É claro que não sentimos Deus como nosso interlocutor que nos dá uma resposta direta e pronta. Mas somente pela circunstância de nos sentarmos, ou nos ajoelharmos diante d'Ele e encetarmos este diálogo com Ele, nos faz bem, porque a oração pode ser uma conversa. Nela conversamos com Deus e dizemos-Lhe tudo o que nos vai na alma. Tal como nas conversas com os nossos amigos terrenos, umas vezes falamos nós, noutras escutamos. Com Deus é igual. Ora falamos nós a Deus, ora, nos silêncios, diante de Deus e apresentando-Lhe o que nos vem à memória, ao pensamento no momento, escutamos aquilo que Deus tem para nos dizer, aquilo que Deus nos responde. Todavia, não O faz por meio de palavras, mas frequentemente por pensamentos e sentimentos que nos vêm à ideia, desde que Lhe abramos as portas aos nossos desejos, o nosso coração. 
Porém, como podemos saber se efetivamente aqueles sentimentos vêm de Deus e não do nosso ego? Ora só vem de Deus sentimentos e pensamentos que nos alargam o coração, que nos enchem de amor e de paz. Tudo o que nos constrange, nos faz ter medo, só pode vir de dentro de nós mesmos.
O filósofo judeu Abraham J. Heschel disse o seguinte a respeito da oração: «Rezar significa agarrarmo-nos a uma palavra, à extremidade de uma corda que, de algum modo, conduz a Deus. Quanto maior for a força, maior a subida que o eco da palavra cai como um fio de prumo no interior da pessoa. Quanto mais pura for a disposição, mais profundo penetra na palavra.»
Assim, a oração conduz-nos cada vez mais perto de Deus, mas também permite conhecermo-nos melhor, aprofundarmos o nosso eu, a nossa essência interior, ajuda-nos a penetrar mais profundamente em nós mesmos.
Mais quero viver e morrer a pretender e esperar a vida eterna, que possuir todas as criaturas e todos os seus bens que hão de acabar. Não me desampares, SSenhor, porque em ti espero: não seja confundida a minha esperança.
Ó irmãos, ó irmãos e filhos deste Deus! Esforcemo-nos, pois sabemos que Sua Majestade disse que, em pesando-nos de O ter ofendido, não Se recordará das nossas culpas e maldades. Oh, que piedade tão sem medida! Que mais queremos? Há, por ventura, quem não tivesse vergonha de pedir tanto? Agora é tempo de aceitar o que nos dá o Senhor piedoso e nosso Deus. Quer amizade; quem a negará a Quem não negou derramar todo o Seu sangue e perder a vida por nós? 
Santa Teresa de Jesus, Exclamações